A médica esotérica, minha segunda filha imaginária e minha relação com a Helena

Quem lê minhas histórias com a Helena, de 7 anos, pode acreditar que temos um relacionamento mágico, incrível, perfeito. Estão enganados. Somos pai e filha normais e apenas publico as mais belas histórias. Porém, os conflitos, as brigas, minha falta de paciência e meus erros também ocupam nossa convivência.

Vou tentar resumir a história porque é longa. Talvez eu nem a termine neste texto. Quando a Helena tinha uns quatro anos ela começou a apresentar um pigarro enlouquecedor. Ela pigarreava umas duas vezes por minuto e quando dava a crise, ficava duas horas pigarreando sem parar. Quando as crises vinham, levava ela para pronto socorro, hospitais e vários pediatras. Ao todo foram sete no período de um ano, até encontrar um (passo o contato depois), que retirou todos os remédios errados que a Helena usava, fez uma bateria de exames e com a ajuda de uma otorrino acerto o diagnóstico: sinusite. Um mês depois do tratamento a Helena não pigarreava mais.

Bom, mas a história não é sobre saúde. Nessa minha busca incessante por pediatras, encontrei uma homeopata que também era esotérica. Ela passou um tratamento, mas logo abominei por não identificar melhoras. Porém, em uma das consultas ela pegou o nome inteiro da Helena, data e hora do seu nascimento. Dias depois ela me ligou falando de características que a Helena apresentaria ao longo dos anos. Mas, ela não falava de adjetivos e sim exemplificava situações que viveríamos no futuro. Nunca relatamos isso para a Helena, mas ela assustadoramente já gabaritou quase todas as situações antevistas pela médica. São situações muito específicas. A doutora não falou que a Helena é uma menina bacana. Ela falou que a Helena seria a primeira a acolher um coleguinha na escola se ele chegasse chorando. Dias depois a professora relatava o acontecido.

A médica me preparou bem para várias situações. Um dia escrevo um texto apenas para falar desse insólito diagnóstico por meio do nome e da data de nascimento da Helena. São muitas situações, mas ela me preparou para a peculiar vaidade da Helena. Minha filha pode passar horas escolhendo a roupa para sair, ela já trocou de roupa 10 vezes em uma oportunidade. A roupa dela tem que combinar, tem que estar bem nela e tem que estar confortável. Quando me planejo prevendo essa característica da Helena, é possível que conseguiremos sair de casa em paz, mas não é garantia. Sair de casa é sempre com choro e ranger de dentes porque tive de apressa-la para terminar logo de se arrumar. Se a busco na escola para almoçar em um restaurante, tenho que ter um vestido reserva na minha mochila do trabalho porque ela não almoça em restaurante com uniforme.

Mas há uma segunda etapa ao preparar a Helena para sair. A Helena tem cabelos cacheados. As cachadas vão me entender. Não tem como aceitar um compromisso sem termos um amplo espaço de tempo para arrumar o cabelo da pequena. Eu brinco falando que não tenho apenas uma filha, tenho duas: a Helena e o Cabelo da Helena. O Cabelo da Helena necessita de carinho, atenção, cuidados e orçamento próprio.

Esses dias fui levar a Helena ao médico. Calculei uma hora para dar banho, arruma-la e irmos. Como pude ser tão ingênuo. Levei quarenta minutos só hidratando os cachos. Bom, 20 minutos daria para se vestir e arrumar o cabelo, certo? Eu e a Helena voltamos a nos falar no meio da consulta. No caminha para o médico, silêncio sepucral. No elevador ainda no nosso prédio, com o rosto lavado de lágrimas ela diz que ela foca em sair de casa chique e elegante e eu não: “você não foca nessas coisas, só foca no horário. Você se veste de médio para mal”, concluiu a Helena finamente me dando uma lição.

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