Parece a história de uma mãe, mas é a minha história

Casei-me com uma ex-aluna de faculdade. A mais brilhante delas. Começamos a namorar e ela ainda era minha aluna. Seu brilhantismo sempre me fez acreditar que apenas o céu era o limite para aquela jovem. Eu também era jovem na época. Ela tinha 21 anos e eu 27 quando começamos a namorar. Como todo homem, inseguro, questionei a um outro aluno e amigo em comum, como lidaria com alguém que me superaria. Ele respondeu: “você sempre será nosso professor e mestre”.

Três anos depois ficamos noivos e no quarto ano nos casamos. Como esperado, ela vinha ascendendo muito profissionalmente. Eu trabalhava e dava aula em faculdades. Meses depois de nos casarmos, engravidamos. Era um sonho sendo realizado. Mas era também tempos de Zika vírus e o medo, o estresse e a angústia cercou todos aqueles nove meses de gestação. Esse período merece um outro texto.

Helena nasceu bem e saudável. Consegui uma licença paternidade de quatro meses no trabalho e, dessa forma, me dedicar a minha recém chegada filha e a minha esposa. Acredito que meu vínculo especial com a Helena foi marcado também por esse período. Depois voltei ao meu ritmo intenso de trabalho.

Trabalhava 14 horas por dia, contando com o tempo em sala de aula. Minha esposa cuidava de tudo em relação à Helena. Eu era apenas presente aos finais de semana. Como toda mãe sabe, a maternidade dá uma bagunçada na vida profissional. Com minha esposa não foi diferente. Foram uns dois anos de reconstrução. Nos últimos cinco anos, porém, minha esposa começou a ter sucessivos convites profissionais muito interessantes e minha previsão dos tempos professor/aluna passou a se concretizar.

Sempre a incentivei e me coloquei à disposição do seu crescimento profissional. Se tenho um Neymar em casa, tenho que favorecer o seu brilho. Foi assim. Na época da pandemia foi quando minha esposa mais ascendeu profissionalmente. Foi também nessa época que “caí para dentro” de minha casa novamente. Passei a me dedicar quase que integralmente a minha filha e a minha esposa.

Os anos de pandemia pesada rendem um outro texto. Mas minha entrega a minha filha foi tamanha, que até hoje sinto os reflexos de ter vivido tão intensamente a paternidade. Tanto para o bem quanto paro o mal. Foi um período que também marcou minha relação com a Helena, mas, por vezes, também desgastou essa relação. Por vezes, me desesperei, fiquei triste, ansioso, nervoso, angustiado. Era um período muito assustador que me obrigou a ser 100% somente pai. E ninguém é 100% somente uma coisa.

Eu e Helena passamos por situações emocionais extremas. Helena teve uma doença respiratória que me fez rodar Brasília para descobrir o que era. Foram sete pediatras, pronto socorro e o medo de ser COVID. Quantas vezes ela, com sua mão morna, pegou na minha, na uma hora diária que tínhamos para brincar no mundo externo e minha vontade era de chorar. Seu toque era a busca de certezas e eu era integralmente dúvidas.

Por muitas vezes percebia que a Helena não queria mais ficar com o papai. As aulas on-line para aquela criança de quatro anos era uma verdadeira tortura. Durante o dia, preparava brincadeiras de atividades que demoravam horas de confecção e minutos de diversão. Teve um dia que cheguei no meu limite. Minha esposa propôs que eu viajasse, fosse visitar meus pais para descansar. “Vou. Mas vou levar a Helena comigo”. Minha esposa: “desse jeito você nunca vai descansar”.

A pandemia passou, mas algo ficou em mim: a compreensão de que a responsabilidade pela Helena é primeiramente minha. Voltei a trabalhar presencialmente e algumas oportunidades de me destacar no trabalho começaram a aparecer. Em uma delas, uma longa viagem a trabalho poderia me render bons frutos. No mesmo período, a babá que nos ajuda com a Helena tirou licença maternidade. Abri mão da viagem.

Ninguém aprovou minha atitude. A sociedade, os parentes, os amigos, ninguém entende, aceita, compreende ou admira a forma que me entreguei à paternidade. Na época da viagem, um amigo, um ótimo pai, me falou: “Você não consegue uma babazinha para ficar com sua filha?”. Respondi: “Você deixaria seus filhos com qualquer babazinha?”. Outro bem sucedido amigo: “Nunca meus filhos me impediram de aproveitar oportunidades profissionais”. Falou o cara casado com a esposa que não trabalha fora e cuida dos filhos quase que sozinha.

As cobranças por entrega e destaque profissional eram constantes e de todos os lados. Como me machucavam aquelas expectativas. “Você pode mais”. “Você pode fazer mais”. “Você se entrega muito a sua família”.

Quando digo que ninguém admira as escolhas que fiz, incluo-me nesta falta de admiração. Não admirava abrir mão de qualquer oportunidade profissional para levar a Helena ao pediatra, à dentista, à psicóloga, para acompanhá-la na feitura da tarefa escolar. Mas, na minha cabeça, eu não tinha escolha, eu tinha uma responsabilidade.

Um pai como sou é logo taxado de superprotetor. Mas ninguém sabe as demandas da minha filha e eu tento fazer o que acredito que seja o melhor.

Os anos mais difíceis da pandemia se passaram, a filha da babá já completou um ano, minha esposa está tendo horários mais flexíveis no trabalho e a Helena, agora com sete anos, está se mostrando cada vez mais autônoma e independente.

No alto dos meus 40 anos, sinto uma leve brisa gélida no rosto que traz a sensação de que posso tentar. Mas dá medo. Parece que estou deixando minha filha. Parece que estou deixando de ser um bom pai. Mas tentar, buscar um crescimento, buscar felicidades profissionais é também buscar uma cura em mim para, caso, se precisar, estar curado para curá-la também.

Ps.: Helena teve uma semana ruim na escola. Quase larguei tudo novamente. Mas ela estava voltando de férias. É normal as crianças voltarem das férias meio devagar. Tudo normalizado. Vamos em frente.

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1 COMENTÁRIO

  1. Bem como disse, sua história mais se assemelha à de inúmeras mulheres, dentre as quais me
    Incluí, e vc acompanhou parte dessa história! Por
    algumas vezes já me desvesti de meus sonhos profissionais pra cuidar da minha filha, da minha família! Nesses tempos só não abrir mão de estudar e me atualizar porque o sonho adormecido e pausado estava vivo!
    Hoje voltei!
    E a promessa do sucesso profissional se aproxima. Vc é um lindo exemplo a ser seguido meu
    Amigo querido. E o sucesso está em você!

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