A relação da Helena com a espiritualidade, aos 7 anos

Helena nos informa: “Não estou falando sozinha. Estou rezando”. Ela estava assistindo vídeos no YouTube pelo meu celular. Perguntamos sobre o que estava rezando. Ela respondeu que estava falando para Jesus que não precisava de dinheiro, que com ou sem dinheiro ela acreditava e o amava. Questionei a ela o que falava no vídeo. Ela respondeu que o vídeo mostrava Jesus pedindo orações para que, quem orasse, ganhasse dinheiro.

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Helena chorou muito. Ela começou a chorar quando falei que aquele que aparecia no vídeo não era Jesus, que aquilo era apenas um vídeo. As imagens mostravam aquela figura loira, de olhos azuis, renascentista, que muito provavelmente não tem nada a ver com Cristo. Helena ficou chocada ao saber que aquele não era Jesus e bradou: “Mas eu acredito e amo Jesus”. Falamos para ela que nós também, mas naquele vídeo não era Jesus. Tanto não era que ela mesma estava discordando dele, ao fazer uma oração falando que não havia relação entre dinheiro e prece.

Falamos para Helena que Jesus mora no coração dela e que apenas nós, o pai e a mãe dela, podemos falar sobre Jesus com ela. Ninguém mais. E proibimos que ela voltasse a assistir vídeos com conteúdo religioso.

Meu casamento é aquilo que dizem sobre os opostos se atraírem. Eu e minha esposa não temos nenhuma afinidade, mas desde que nos conhecemos achamos muito bom ficar juntos um do outro. Sobre religião, não é diferente. Na verdade, é diferente também: eu sou católico vindo de uma tradicional família católica e ela é evangélica da Assembleia de Deus.

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Nosso namoro encontrou resistências e questionamentos: “Não vai dar certo”; “Um vai converter o outro”, etc. Éramos praticantes. Minha esposa, a evangélica, quis batizar a Helena na Igreja Católica. “Criança tem que ter padrinhos”, dizia. Por mim, deixava a Helena decidir com o tempo. Todos os domingos íamos à igreja. Uma semana íamos na Católica; na outra, evangélica. Com o passar dos anos, fomos identificando um crescimento de uma certa ideologia política extremada dentro de ambas as igrejas e nos afastamos.

De toda atenção e cuidado que tenho com a Helena, reconheço que a espiritualidade não é uma prioridade para mim. Antes dessa espiritualidade que nem sei o que é direito, prefiro trabalhar com ela valores humanos de bondade, empatia, ética, anti-racismo e anti-homofobia. Porém, parece que essas características já vieram com a Helena ao nascer. As pessoas que mais a conhecem exaltam o quanto ela preza por adotar uma postura ética sempre.

Porém, outra característica inata dela parece ser essa espiritualidade religiosa. Ela afirma amar Jesus e Deus de verdade, sem que nós tivéssemos feito qualquer coisa para essa compreensão cosmogónica. Pelo contrário. Nunca em nossa casa houve dogmatismos, pregações e demonstrações exageradas e marcantes de religiosidade.

Tenho uma forte preocupação com esse aspecto. Tenho enorme preocupação com a saúde mental de qualquer pessoa, principalmente da minha filha. Acredito ser perigosa a radicalização do mundo simbólico apresentado pelas religiões na vida real de uma pessoa. É na radicalização deste mundo simbólico que alucinações, alienações, ignorâncias, preconceitos, anti-ciência e terrorismos eclodem.

Vigio atentamente tudo em relação à minha filha: sua saúde orgânica, seu desempenho na escola, suas emoções, sua relação e compreensão do outro, sua relação consigo mesma e também a sua relação com a divindade. Neste último, decidimos que não será por meio de vídeos na internet que a Helena construirá sua religiosidade, mas exclusivamente, quando criança, na observação da vida de seu pai e de sua mãe.

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